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Em um passado não tão distante assim, a carreira vinha acompanhada de palavras como propósito, missão e vocação. Não que esses termos tenham deixado de ser relevantes, mas, antes, a nossa identidade era construída sobretudo a partir do cargo que ocupávamos, da empresa em que atuávamos e da trajetória que projetávamos. O que fazíamos profissionalmente definia, em grande parte, quem éramos.
Hoje, a dimensão profissional segue, sim, sendo importante, mas de um jeito diferente. Se antes ela era o centro das decisões da vida de alguém, já há algum tempo divide espaço com outras dimensões, como saúde, relações pessoais, tempo livre e bem-estar.
Estamos falando de um deslocamento no conjunto das prioridades que reorganiza a forma como as pessoas constroem sentido para a própria vida. E, antes que aquele pensamento intrusivo venha para culpar “essa nova geração”, já adianto que esse movimento não é exclusivo de quem é mais jovem.
Isso porque, ao longo dos 24 anos da pesquisa Carreira dos Sonhos, feita pela Cia de Talentos, observamos uma mudança consistente na forma como indivíduos, de maneira geral, se relacionam com a carreira e com suas expectativas de realização. Como expliquei, o trabalho segue importante, mas deixou de concentrar, sozinho, as promessas de identidade, satisfação e sentido de vida.
E essa é uma verdade que atravessa todas as faixas etárias e níveis de senioridade dentro das empresas: da juventude no início de carreira, passando pela média gestão e chegando até a alta liderança, todo mundo vem revisitando prioridades.
Aqui, vale reforçar um ponto importante: esse movimento não significa necessariamente uma busca pelo equilíbrio perfeito entre todas as dimensões da vida. Sabemos que nem sempre isso é possível e que, às vezes, o trabalho vai exigir mais a nossa dedicação e que, em outras, questões familiares receberão mais atenção. Faz parte.
O que acontece atualmente é uma espécie de ganho de consciência do custo do trabalho, não busca de harmonia.
Motivações para a mudança
Parte desse movimento pode ser explicada por um estado de esgotamento quase que generalizado. O que os dados da Carreira dos Sonhos nos mostram é que, independentemente do nível de senioridade, muita gente que está no mercado de trabalho lida com alguma questão emocional.
Para ser mais precisa, o levantamento revelou que 62% das pessoas da alta liderança, 33% da média gestão e 42% do grupo jovem avaliam sua saúde mental de moderada a muito frágil. À primeira vista, pode parecer que um estado moderado não é algo ruim, mas entendemos que há nisso um sinal de alerta, ainda mais quando consideramos outras leituras de cenário, como a de um estudo do The School of Life. Segundo o levantamento, 52% dos líderes e 59% dos liderados afirmam recorrer a medicamentos para lidar com estresse e ansiedade.
Naturalmente, tudo isso atinge as empresas. Para se ter uma ideia, em 2024, o Brasil registrou mais de 472 mil afastamentos do trabalho por transtornos mentais, um aumento de 68% em relação a 2023, segundo dados do Ministério da Previdência Social. Ou seja, estamos diante de um fenômeno coletivo que também gera um impacto direto sobre a dinâmica das organizações.
É daí que vem o deslocamento do trabalho como eixo organizador da vida. Conscientes do próprio cansaço, ansiedade e transtornos, profissionais começam a reavaliar escolhas, expectativas e limites.
Nesse contexto, o bem-estar deixa de ser um “extra” e passa a ocupar uma posição mais central na forma como as pessoas organizam a própria vida. Buscar autocuidado não aparece como um ideal romântico, mas como uma estratégia para conseguir operar em um mundo volátil, marcado por pressão constante e mudanças aceleradas.
Mais do que isso, investir no bem-estar passa a ser interpretado como um sinal de autonomia. Em uma lógica social e profissional diferente da que conhecíamos, ter margem de escolha sobre o uso do próprio tempo e sobre os limites da própria agenda torna-se um novo indicador de poder.
A transformação do sucesso
Se antes o cargo, o salário e o nível de senioridade eram os grandes símbolos de poder, em um contexto em que as pessoas valorizam mais a saúde física e mental, essa “coroa” passa para quem consegue negociar prioridades com mais consciência. Proteger espaços para dormir melhor, cuidar da saúde e cultivar relações passa a representar uma busca por autonomia, não uma rejeição à carreira.
Nessa leitura de cenário, é importante entender que as pessoas seguem, sim, interessadas em pacotes de remuneração mais atrativos, em crescimento profissional e em todo o “combo do sucesso” que já conhecemos. Mas os dados mostram que esses aspectos já não operam sozinhos.
Entre os jovens respondentes da Carreira dos Sonhos, 86% consideram o bem-estar tão importante quanto o salário. Não à toa, as palavras que, em 2025, foram mais associadas ao conceito de sucesso por esse grupo foram: bem-estar, estabilidade, reconhecimento e trabalho com significado.
Tudo indica, portanto, que ficou para trás a ideia do sacrifício irrestrito em nome do trabalho. Jovens, média gestão e alta liderança querem investir na vida profissional, crescer na carreira e alcançar novos patamares de realização. A diferença é que o trabalho passa a ser um meio para isso e não mais o ponto de chegada.
Compreender essa mudança de realidade não é um “exercício filosófico”. Para as empresas, trata-se de uma vantagem concreta na atração e no engajamento de pessoas. Organizações que entendem como profissionais estão reorganizando prioridades conseguem alinhar expectativas com mais realismo, reduzir fricções e construir relações de trabalho sustentáveis ao longo de 2026.
Fonte: InfoMoney – Paula Esteves. |