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Já estava olhando para o celular sem lembrar de ter pegado ele? Se você sente que está cada vez mais difícil manter o foco e a atenção por tempo prolongado, não está sozinho. A atenção do cérebro humano é um problema complexo e a solução para isso não está ligada a ser cada dia mais produtivo. Surpreso?
Essa é uma das primeiras coisas que Stephen Little, professor da The School of Life, coloca na mesa quando o assunto é atenção. E o recado é: o problema é real, mas mais sofisticado do que parece. Não é culpa só do TikTok e a solução não é jogar o celular pela janela.
O que é? Antes de falar em foco, Little propõe começar pelo oposto. Distração é qualquer estímulo que compete com o nosso foco atual. Simples assim. Pode ser externo - uma notificação, um barulho - ou interno, como um pensamento que surge do nada no meio de uma reunião.
Ou seja, a atenção é composta por dois polos. O primeiro é o foco consciente, que seleciona um objeto e filtra o resto. O segundo são os processos inconscientes, que ficam pesando o que é interessante ou não e influenciando o foco sem que a gente perceba.
"Já se pegou num momento em que estava sem fazer nada e, de repente, quando se deu conta, o celular estava na sua mão? E você não lembra que escolheu, mas alguém escolheu", explica Little.
História antiga. A atenção humana sempre teve concorrentes. Na época das cavernas, eram os sons da noite. Antes da internet, era a televisão. Agora, a velocidade e o volume dos estímulos são maiores.
Os de hoje são projetados para acionar os processos inconscientes do cérebro, em detrimento de uma tomada de decisão ativa. As redes sociais, em especial, são programadas para nos entregar prazer imediato e contínuo.
O resultado é que somos recondicionados: cada vez mais acostumados a trocar de foco a cada 30 segundos, e cada vez menos capazes de sustentar a atenção em algo por mais tempo.
No trampo… pode ser um problema. Muitas vezes temos que manter a concentração em atividades que não são tão estimulantes —pelo menos, não tanto quanto um vídeo dinâmico de 30 segundos - e que precisam de horas de concentração para serem concluídas.
Perder a capacidade de se entediar é perigoso: o cérebro humano é programado para ter momentos de baixo estímulo.
Para o especialista, estamos perdendo a capacidade de "deixar a coceira coçar" —isto é, quanto tempo você aguenta não checar a notificação que acabou de apitar no seu celular? A briga é para recuperar a habilidade de abandonar outras preocupações enquanto tentamos focar em uma atividade.
Produtividade, produtividade, produtividade? Aqui Little faz uma distinção importante: atenção sustentada não é sinônimo de produtividade. Foco o tempo todo não é saudável e pode aumentar seus níveis de adrenalina e cortisol, o que leva à exaustão e aumenta a chance de erros.
O que a atenção sustentada oferece de mais valioso é introspecção: a capacidade de contemplar um assunto com profundidade, questionar ideias, desenvolver pensamentos próprios. "Uma das maiores perdas é essa: a capacidade de orientar nossa atenção para dentro", diz o professor.
E tem uma terceira dimensão da prática do foco é importante: a atenção para os outros. Sair do automático nos relacionamentos e ouvir de verdade pode ajudar tanto no âmbito pessoal, quanto no profissional. De que vale uma reunião "one-on-one" se você não consegue reter o que foi dito?
"O ato de prestar atenção, de fato, é o início da saída do automático", enfatiza o professor.
Passo a passo. O ponto de partida, segundo Little, não é eliminar o celular ou as redes sociais. Se um estímulo virou fissura, tirar ele à força gera recaída. O truque, como já registrado, é aprender a conviver com a coceira: sentir a vontade e, uma ou duas vezes por dia, não ceder.
O segundo passo é buscar pequenos rituais de atenção no mundo físico. Não necessariamente meditação - apesar de essa ser uma prática recomendada pelo professor, caso funcione para você. Coisas menores: apreciar o peso do corpo na cama antes de pegar o celular de manhã, sentir a água na hora de lavar as mãos, estar presente em uma conversa. "Não é bobo, é grande coisa", garante Little.
Atitudes como essas podem servir como gatilho para momentos de foco estendido. Por exemplo: antes de uma reunião, pegue um caderno de anotações e faça um cabeçalho. A partir desse momento, sua atenção estará nesse encontro e no que for dito nele. Das próximas vezes, ao repetir o cabeçalho, seu cérebro começa a entender que é hora de focar.
Cuidado! O erro mais comum nesse retreinamento é ir de 8 para 80 - querer ler 100 páginas de uma vez quando mal está conseguindo 10. Comece menor e, logo, estará com mais perto da realidade física do que da digital.
Fonte: Folha Carreiras – Luana Franzão. |