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"Eu não tenho paciência para quem está começando", disse a atriz Suzana Vieira em um episódio do finado programa "Vídeo Show", exibido pela Rede Globo até 2019. O recorte do momento viralizou, e o vídeo pode ser encontrado até hoje passeando pelas redes sociais.
A cena traz para a realidade um momento que é o pesadelo de muita gente: ser pego em um momento em que não sabe o que fazer. Quanto mais adulto você fica, é cada vez mais difícil se colocar na posição de iniciante: todo mundo quer saber tudo, já que quem não sabe está em uma posição mais vulnerável.
Ao longo da sua carreira, no entanto, você se encontrará várias vezes no lugar de aprendiz - é melhor ir se acostumando. Sempre que mudar de área, de cargo, de time ou de empresa, precisará recomeçar. E, adivinhe só, saberá menos do que todas as pessoas que ocupavam aquele lugar antes de você chegar. Legal, né?
Existem formas de fazer o "tudo novo de novo" menos traumático e mais fluido. Já adianto uma conclusão: evitar fricções e emoções incômodas não levará você a lugar algum.
Medo do medo. Muitas emoções entram em ação quando nos sentimos vulneráveis, segundo Wanderley Cintra, psicólogo especialista em relações de trabalho. A que grita mais alto é o medo: de julgamento, de não satisfazer alguma liderança, de ter uma punição financeira por não ter feito um bom trabalho. Às vezes temos até medo de deixar o medo nos paralisar.
Ninguém quer errar. Na opinião do profissional, as redes sociais exacerbam a impressão de que ninguém no mundo erra - além de você, é claro.
"Tudo aquilo que é treino e é desgaste é escondido. Ou se é mostrado, tem que dar certo. Não se mostra o processo em que se tenta e, no final, se erra", explica Cintra.
O receio de começar algo novo vem do medo de não dominar aquilo, mesmo tentando".
Camuflagem. O sentimento de impotência é maior quando há pessoas observando o seu processo. Quando começa em um novo emprego, por exemplo, há pressa para mostrar que você aprendeu o que precisa para ser, de fato, uma peça útil naquela engrenagem. Há pressa para atender as expectativas que você acha que existem sobre você.
Você já parou para pensar se julga os outros por demorar a aprender? Às vezes somos mais duros conosco do que com os colegas.
"Eu enxergo o comportamento do outro quando estou olhando de fora, mas tenho dificuldade em olhar para mim, de me ver no lugar de iniciante. Nós punimos a nós mesmos, mas quando vemos alguém sendo punido, muitas vezes abraçamos", analisa o psicólogo.
No repeat. Acertar exige repertório de repetição. Disso você sabe, mas não tem paciência para se lembrar da lição quando está ansioso para ser bom naquilo que precisa fazer.
O tempo, a correção e a autoexigência são componentes importantes na sua jornada de gafanhoto a sensei. E como já mencionei, você vai se ver na estaca zero várias vezes durante a carreira. Quanto mais rápido se acostumar a ter que aprender e treinar, mais fácil será a jornada.
É difícil ter paciência em tempos de ChatGPT, que resolve tudo em um piscar de olhos. Acontece que o seu cérebro muito humano tem um tempo diferente e você não vai escapar de ter que treiná-lo. Lembre-se de que mesmo a IA precisa de treinamento - o que usamos é a versão dela depois de muito ensaio.
"Perdemos a noção de que competência leva tempo", afirma o profissional.
Restringindo a visão. Uma forma de começar a ter mais paciência durante o processo de aprendizagem é evitar a comparação com os outros. Fotos e vídeos são recortes positivos publicados. Mesmo em conversas, tendemos a compartilhar apenas os sucessos e deixar de lado o esforço. Olhe para o seu próprio progresso, comparando resultados atuais com os anteriores.
Olhos no espelho. É preciso também encarar de frente o medo da rejeição. Wanderley Cintra divide a rejeição em tipos.
A rejeição real é quando não há como relativizar. Você vendeu um projeto e sua liderança negou a execução dele, por exemplo. É a mais dura, mas a mais fácil de lidar. Existem critérios objetivos do porquê aquilo aconteceu e é necessário analisá-los para acertar da próxima vez. Bola para frente.
Há também a rejeição inventada: eu, imaginando que posso ser rejeitado, não faço meu melhor trabalho. Nessas horas, queremos controlar um evento final que não é nosso. É uma defesa contra o medo de errar.
O psicólogo indica que é necessário lembrar-se de que seu profissionalismo ou capacidade de trabalhar não são definidos por erros de percurso. É quase impossível chegar no acerto sem passar pelo erro.
A frustração é a única forma de fortalecer nosso psicológico em busca de ser um profissional melhor —respeitando os limites da saúde mental, claro.
Fonte: Folha Carreiras – Luana Franzão. |